Alguns episódios que marcaram a minha adolescência em Pompéia, SP. Lembranças de momentos felizes e outros assuntos...

Wednesday, February 4, 2015

Buscando Emoçòes

Eu Me Lembro
  Este é o primeiro capítulo do meu livro "Eu Me Lembro", que começa comparando os meus "bons tempos" com as coisas que a juventude faz atualmente. 
  Na juventude atual, a busca de emoções se caracteriza por comportamentos que só posso considerar estranhos. Hoje, as bicicletas não são para percorrer distâncias, são para saltar, empinar, tombar, torcer, subir e descer montanhas. No meu tempo, pelo menos comigo e com alguns amigos, era um prazer encarar a areia das nossas estradas para viagens intermunicipais que demoravam um dia inteiro, sempre aos domingos. Nós fazíamos exercício duro, em vez de quebrar pernas e braços, dedos e pés, em exibições que talvez nem precisassem das duas rodas. Os orangotangos fazem exibições magníficas nos galhos das árvores sem precisar de nenhuma bicicleta.  
  Os criadores dos chamados esportes “radicais” inventaram os skateboards, que descendem dos patins de antigamente, hoje chamados de “skates”, mas não são usados da mesma maneira. Servem para a mesma coisa que as bicicletas atuais. Para saltar, empinar, torcer, subir e descer rampas e obstáculos. Servem para quebrar pernas e braços, dedos e pés, e pescoços, em alguns casos.
No meu tempo, ninguém se atreveria a pendurar numa corda elástica, conhecida como “bungee” para saltar sobre abismos, precipícios e rios, muitas vezes usando como base pontes muito altas. De vez em quando alguém perde a vida cometendo essa idiotice.
  Vez ou outra o nosso pessoal bebia demais e acabava embriagado em casa, no clube, no baile ou até mesmo na rua. Sei de alguns que eram alcoólicos e faziam isso por doença. Mas a maioria só bebia por diversão, de vez em quando. Hoje, beber é considerado coisa chique. O uísque é venerado como uma bebida de classe, e quem toma mais, é mais respeitado. Se for uísque importado, melhor ainda. Aposto que muita gente odeia sentir essa bebida queimar enquanto desce, mas tem que encher a cara de uísque porque, fazendo isso, certamente vai ganhar alguns pontos na escala social. E tem gente que encosta a barriga num bar todas as noites, pra tomar o seu uisquinho, ou outras bebidas consideradas chiques, como tequila, vodca, vermute, gin, ou brandy. Depois, acaba dando de cara com a polícia em alguma avenida, numa batida da lei seca.
  Eu sei de muita gente que, no meu tempo, cheirava seu lança-perfume no Carnaval. Era moda. Para muitos, era vício. Mas não sei de ninguém que passasse o ano inteiro, todos os dias, indo esconder-se no banheiro para cheirar o seu lança-perfume. Era coisa que se fazia uma vez por ano, só no Carnaval. Ninguém perdia o controle por causa da droga e eram poucos os que faziam isso. Hoje, milhões de jovens se enchem de cocaína, crack, maconha e até heroína. É vício mesmo, do mais pesado que existe, e que sempre começa como um ato inocente, para agradar algum amigo ou amiga. E o pobre coitado acaba viciado, estragando o resto da sua vida por causa disso. Gasta tudo que tem para comprar drogas e, quando não tem mais dinheiro, passa a vender coisas. Quando não tem mais nada pra vender, rouba.
  Na minha cidade, no meu tempo, poucas pessoas tinham motocicleta. Meu pai era uma dessas pessoas. Mas o prazer dele era o mesmo que eu tinha então, com a minha bicicleta, isto é, sair pelas estradas, viajar, conhecer lugares novos, respirar outros ares. E as motos eram mantidas no seu estado original, sem veneno, Hoje, moto é para empinar, tirar racha, voar entre os carros, arriscar a própria vida e a de quem está por perto, numa demonstração de idiotice que não tem tamanho. Quanto mais potência tiver a moto, melhor. Quanto mais rápido ela andar, mais feliz será o piloto. E salve-se quem puder!
  Antigamente, só os filhos de rico podiam dirigir, a partir dos 18 anos de idade. Nenhum pai deixava o filho ou filha pegar o carro, se este ou esta não tivesse a carteira de habilitação. Nenhum adolescente tinha seu próprio carro, mesmo os mais ricos. A idade mínima para se poder tirar a carteira de habilitação ainda é 18 anos, mas é raro encontrar um pai que não ensine o filho ou filha a dirigir aos 11 ou 12 anos de idade. Nas estradas rurais, qualquer menino ou menina pode dirigir, porque não há policiamento. Na fazenda, até crianças de menos de 10 anos de idade pegam no volante e aprontam das suas. Todo mundo tem carro, e dirige com o celular na mão, mandando e recebendo mensagens de texto, matando e morrendo.
  Os valores foram totalmente subvertidos. Papai só se preocupa com os negócios. Quanto mais dinheiro acumula, mais amantes ele arruma. E é fácil arrumar amantes, porque há muitas mulheres que topam tudo, desde que possam desfrutar de uma vida confortável, com luxos que ela mesma jamais poderia comprar. E os filhos não têm a mínima noção do que seja uma família. Papai compra o diploma da faculdade e arruma um empregão para o filho ou a filha e acha que fez a sua obrigação. E quem quer casar, hoje em dia, são só os homossexuais. Os demais moram junto. Não assumem compromisso e levantam acampamento sem mais nem menos, partindo pra outra, algumas vezes até deixando filhos que irão ter sérios problemas psicológicos por isso.
  Eu me lembro de alguns casais, na minha cidade natal, que inspiravam histórias de amor como nunca se viu, nem no cinema. Estavam juntos todos os dias, mostrando profundo respeito um pelo outro, com briguinhas de vez em quando, mas nunca chegando à separação. Os encontros eram às claras, na frente de todo mundo, e o namorado levava a garota para casa às 10 ou, no máximo, às 11 horas da noite. Alguns desses se casaram, tiveram filhos e hoje têm netos e até bisnetos. Outros, por um motivo ou outro, acabaram se separando, e cada um seguiu o seu caminho. Para alguém como eu, foi muito triste ver a separação de amigos que namoraram durante muitos anos e, no fim, se casaram com outras pessoas. Sei que eles acabaram sendo felizes e também têm seus netos e até bisnetos, mas me pergunto se eles se amam tanto como amavam o outro par, na adolescência.
  Os adolescentes de hoje buscam emoções correndo riscos até de vida e arriscando a vida alheia também. No meu tempo, as coisas eram muito mais simples. 

No comments:

Post a Comment