Este é o primeiro capítulo do meu livro "Eu Me Lembro", que começa comparando os meus "bons tempos" com as coisas que a juventude faz atualmente.
Na juventude
atual, a busca de emoções se caracteriza por comportamentos que só posso
considerar estranhos. Hoje, as bicicletas não são para percorrer distâncias,
são para saltar, empinar, tombar, torcer, subir e descer montanhas. No meu
tempo, pelo menos comigo e com alguns amigos, era um prazer encarar a areia das
nossas estradas para viagens intermunicipais que demoravam um dia inteiro,
sempre aos domingos. Nós fazíamos exercício duro, em vez de quebrar pernas e
braços, dedos e pés, em exibições que talvez nem precisassem das duas rodas. Os
orangotangos fazem exibições magníficas nos galhos das árvores sem precisar de
nenhuma bicicleta.
Os criadores dos
chamados esportes “radicais” inventaram os skateboards, que descendem dos
patins de antigamente, hoje chamados de “skates”, mas não são usados da mesma
maneira. Servem para a mesma coisa que as bicicletas atuais. Para saltar,
empinar, torcer, subir e descer rampas e obstáculos. Servem para quebrar pernas
e braços, dedos e pés, e pescoços, em alguns casos.
No meu tempo,
ninguém se atreveria a pendurar numa corda elástica, conhecida como “bungee”
para saltar sobre abismos, precipícios e rios, muitas vezes usando como base
pontes muito altas. De vez em quando alguém perde a vida cometendo essa
idiotice.
Vez ou outra o
nosso pessoal bebia demais e acabava embriagado em casa, no clube, no baile ou
até mesmo na rua. Sei de alguns que eram alcoólicos e faziam isso por doença.
Mas a maioria só bebia por diversão, de vez em quando. Hoje, beber é
considerado coisa chique. O uísque é venerado como uma bebida de classe, e quem
toma mais, é mais respeitado. Se for uísque importado, melhor ainda. Aposto que
muita gente odeia sentir essa bebida queimar enquanto desce, mas tem que encher
a cara de uísque porque, fazendo isso, certamente vai ganhar alguns pontos na
escala social. E tem gente que encosta a barriga num bar todas as noites, pra
tomar o seu uisquinho, ou outras bebidas consideradas chiques, como tequila,
vodca, vermute, gin, ou brandy. Depois, acaba dando de cara com a polícia em
alguma avenida, numa batida da lei seca.
Eu sei de muita
gente que, no meu tempo, cheirava seu lança-perfume no Carnaval. Era moda. Para
muitos, era vício. Mas não sei de ninguém que passasse o ano inteiro, todos os
dias, indo esconder-se no banheiro para cheirar o seu lança-perfume. Era coisa
que se fazia uma vez por ano, só no Carnaval. Ninguém perdia o controle por
causa da droga e eram poucos os que faziam isso. Hoje, milhões de jovens se
enchem de cocaína, crack, maconha e até heroína. É vício mesmo, do mais pesado
que existe, e que sempre começa como um ato inocente, para agradar algum amigo
ou amiga. E o pobre coitado acaba viciado, estragando o resto da sua vida por
causa disso. Gasta tudo que tem para comprar drogas e, quando não tem mais
dinheiro, passa a vender coisas. Quando não tem mais nada pra vender, rouba.
Na minha cidade,
no meu tempo, poucas pessoas tinham motocicleta. Meu pai era uma dessas
pessoas. Mas o prazer dele era o mesmo que eu tinha então, com a minha
bicicleta, isto é, sair pelas estradas, viajar, conhecer lugares novos,
respirar outros ares. E as motos eram mantidas no seu estado original, sem
veneno, Hoje, moto é para empinar, tirar racha, voar entre os carros, arriscar
a própria vida e a de quem está por perto, numa demonstração de idiotice que
não tem tamanho. Quanto mais potência tiver a moto, melhor. Quanto mais rápido
ela andar, mais feliz será o piloto. E salve-se quem puder!
Antigamente, só os
filhos de rico podiam dirigir, a partir dos 18 anos de idade. Nenhum pai
deixava o filho ou filha pegar o carro, se este ou esta não tivesse a carteira
de habilitação. Nenhum adolescente tinha seu próprio carro, mesmo os mais
ricos. A idade mínima para se poder tirar a carteira de habilitação ainda é 18
anos, mas é raro encontrar um pai que não ensine o filho ou filha a dirigir aos
11 ou 12 anos de idade. Nas estradas rurais, qualquer menino ou menina pode
dirigir, porque não há policiamento. Na fazenda, até crianças de menos de 10
anos de idade pegam no volante e aprontam das suas. Todo mundo tem carro, e
dirige com o celular na mão, mandando e recebendo mensagens de texto, matando e
morrendo.
Os valores foram
totalmente subvertidos. Papai só se preocupa com os negócios. Quanto mais
dinheiro acumula, mais amantes ele arruma. E é fácil arrumar amantes, porque há
muitas mulheres que topam tudo, desde que possam desfrutar de uma vida
confortável, com luxos que ela mesma jamais poderia comprar. E os filhos não
têm a mínima noção do que seja uma família. Papai compra o diploma da faculdade
e arruma um empregão para o filho ou a filha e acha que fez a sua obrigação. E
quem quer casar, hoje em dia, são só os homossexuais. Os demais moram junto.
Não assumem compromisso e levantam acampamento sem mais nem menos, partindo pra
outra, algumas vezes até deixando filhos que irão ter sérios problemas
psicológicos por isso.
Eu me lembro de
alguns casais, na minha cidade natal, que inspiravam histórias de amor como
nunca se viu, nem no cinema. Estavam juntos todos os dias, mostrando profundo
respeito um pelo outro, com briguinhas de vez em quando, mas nunca chegando à
separação. Os encontros eram às claras, na frente de todo mundo, e o namorado
levava a garota para casa às 10 ou, no máximo, às 11 horas da noite. Alguns
desses se casaram, tiveram filhos e hoje têm netos e até bisnetos. Outros, por
um motivo ou outro, acabaram se separando, e cada um seguiu o seu caminho. Para
alguém como eu, foi muito triste ver a separação de amigos que namoraram
durante muitos anos e, no fim, se casaram com outras pessoas. Sei que eles
acabaram sendo felizes e também têm seus netos e até bisnetos, mas me pergunto
se eles se amam tanto como amavam o outro par, na adolescência.
Os adolescentes de
hoje buscam emoções correndo riscos até de vida e arriscando a vida alheia
também. No meu tempo, as coisas eram muito mais simples.

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