No dia 2 de maio de 1960, foi executado na câmara de gás da penitenciária de San Quentin, na Califórnia, um homem chamado Caryl Chessman, que ficou famoso pelo apelido de “O Bandido da Luz Vermelha”. Ele cometeu dezenas de assaltos e estupros e acabou sendo condenado à morte, em 1948. Ganhou esse apelido porque usava uma luz vermelha em cima do carro, com a qual se fazia passar por policial para obrigar suas vítimas a pararem em lugares ermos, onde cometia seus crimes à mão armada.
Durante 11 anos o caso se arrastou pelos tribunais, porque Chessman, como todo criminoso que vai preso, se dizia inocente, apesar das inúmeras e incontestáveis provas que existiam contra ele. Atuou como seu próprio advogado, sempre insistindo veementemente na sua inocência. Ficou muito famoso no mundo inteiro, inclusive na minha cidade natal, apesar de não existir televisão e muito menos Internet na época. Escreveu vários livros e sua história serviu de argumento para diversos filmes.
Chessman estava na Califórnia, a quase 10.000 km de distância mas, no ginásio em que eu estudava também foi o estopim de um longo debate sobre a pena de morte, com uma facção favorável e outra contrária à execução de Chessman. Até alguns professores se envolveram, externando abertamente as suas opiniões pró ou contra.
Mas o maior grupo contrário à pena de morte, especificamente no caso de Chessman, era o das meninas, isto é, das adolescentes que estudavam na mesma classe que eu. Elas reclamavam, gritavam e choravam, dizendo que Chessman não devia morrer. Mas não baseavam o seu argumento nas notícias que os jornais publicavam todos os dias sobre o processo, e sim no fato de que o consideravam “bonito”. Para algumas, era emocionante pensar no tipo de crime que Chessman cometia, isto é os estupros e os atos sexuais mais vis e absurdos que se podia imaginar. O bandido morreu como um herói entre as meninas, que choraram durante semanas seguidas, depois da execução dele.
Nisso, as coisas não mudaram muito. Hoje, nos corredores da morte, não há nenhum Caryl Chessman galvanizando as atenções de toda a imprensa, e a pena de morte ainda é debatida, mas em muito menor escala do que naquela época. A juventude não se importa nem um pouco com a pena capital, e seus heróis não são os bandidos, mas sim os jogadores de futebol, os atores e atrizes do cinema e da TV, membros de grupos de Rock e os “rappers”, geralmente consumidores de drogas e protagonistas de escândalos e mais escândalos.
As garotas simplesmente adoram os jogadores famosos, não porque sejam bons jogadores, mas porque são famosos e ganham verdadeiras fortunas que, no meu entender, realmente não merecem. Ninguém tem carinho especial por nenhum professor, e os jovens simplesmente odeiam a polícia, não por causa dos abusos cometidos por alguns bandidos fardados, mas simplesmente porque a polícia faz cumprir a lei, aplica multas, faz batidas contra os bêbados que dirigem perigosamente, etc. etc.
Caryl Chessman foi um herói para muitas garotas da minha época. Algumas delas talvez chorem até hoje, ao lembrar do Bandido da Luz Vermelha. Mas nós tínhamos outros heróis. Entre os meus heróis, havia vários professores. O grande catarinense Carmelino José Dalsenter foi odiado por muitos, porque era um professor exigente e justo. Apesar disso, eu duvido que exista hoje uma só pessoa que tenha estudado com ele e que não o considere como o melhor professor que já tivemos. Não foi o melhor professor de Português. Para mim foi o melhor professor!
Em menor escala, tivemos diversos heróis locais, que se destacaram nos esportes, na vida profissional, e na indústria regional, que atingiu níveis de potência internacional. Professores, médicos, engenheiros, radialistas, jornalistas e até um Ministro da Aeronáutica saíram do nosso meio, levando para bem longe o nome da cidade que muita gente só conhecia como “aquela cidadezinha perto de Marília.” Hoje as coisas mudaram, e falta pouco para Marília ser conhecida como “aquela cidade perto de Pompéia...”
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