Você sabe que altura tem a torre da igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário? Eu não sei. Nunca me disseram e eu nunca medi, mas é bem alta.
A igreja foi construída bem antes de eu nascer. Tem gente que deve saber exatamente quando ela foi inaugurada, quantos metros de altura tem a torre, quem construiu, quem pintou a igreja e tudo mais. Na verdade, não é uma questão de ter memória. É só consultar os registros municipais e os da própria igreja para saber tudo isso. Mas eu não pretendo fazer essas consultas, porque as informações em questão não importam nem um pouco nesta história.
Sempre fui meio afoito, na minha juventude. Como todo jovem, eu me achava indestrutível e pensava que nada de ruim jamais iria me acontecer. Mas, apesar de confiar demais no meu taco, eu tinha lido o livro “Nineteen Eighty-Four”, ou “1984”, de George Orwell, e imaginava que nunca chegaríamos á década de 1980. Mal posso acreditar que 1984 já passou há mais de 30 anos…
Eu tinha pouco mais de 17 anos de idade e trabalhava na Relojoaria Toniolo. Aprendia a consertar despertadores e relógios de carrilhão, varria a loja todas as manhãs, tirava o pó das vitrines e das prateleiras e, aos sábados, no final da tarde, subia à torre da igreja para acertar e dar corda no relógio que Mário Toniolo tinha construído e instalado ali.
Muitas vezes eu subi até o relógio, sempre contando os degraus, mas não me lembro mais desse número. Só sei que era um exercício e tanto.
Eu tinha a chave da porta que dava acesso às escadarias, e gostava de fazer aquilo. O panorama que se via da torre da igreja ainda está bem guardado na minha memória. Além das casas e das ruas lá embaixo, era possível olhar à distância e ver os lindos vales ao norte e ao sul da cidade. E as colinas a leste e oeste também. No inverno, quando o sol se punha mais cedo, a vista lá de cima era ainda mais estonteante. Estonteante, sim…
Bom, acho que ninguém sabe e, se alguém sabe, nunca me disseram nada. O fato é que mais de uma vez eu fiz a loucura de sair de dentro da torre e caminhar pelo lado de fora, na altura do campanário. As duplas janelas que ainda existem, em cada um dos quatro cantos da torre, bem abaixo do andar do relógio, não eram fechadas, como agora. Era só levantar a perna e sair para o patamar externo.
Fiz isso várias vezes, sem proteção alguma e certamente estava arriscando o pescoço. Acho que uma queda daquela altura teria me levado, no mínimo, à Santa Casa. Talvez, direto ao cemitério. Se meus pais ficassem sabendo, o meu destino seria o mesmo: a Santa Casa ou o cemitério…
Por que fiz isso? Sei lá. Excesso de confiança. Ou talvez fosse uma tendência suicida que não tinha razão de ser. Eu era forte, saudável, bonitão, e tinha diversas aptidões. Não tinha motivo para me arriscar daquele modo. A não ser o exibicionismo. Só que, por incrivel que pareça, eu não queria que ninguém me visse fazendo aquilo. O importante é que nunca me aconteceu nada e estou aqui, velho, porém ainda firme.
Hoje eu tenho certeza de que não faria mais isso. Primeiro, porque fecharam as janelas do campanário da torre da igreja e não daria pra sair e caminhar pelo lado de fora. Segundo, porque acho que eu não aguentaria mais subir todos aqueles degraus. A força nas pernas já não é a mesma e, hoje, o meu instinto de auto preservação fala muito mais alto…
Que legal! Aquela torre da Igreja, os sinos, eram tão misteriosos para mim quando era criança. Aventurei-me várias vezes subir , com alguma amiga ,pois cantávamos no coro da Maria Bronhare, o que nos facilitava de certa forma o acesso. Adorava puxar as cordinhas que faziam o sino soar. A gente se pendurava nelas. Mas, faz tanto tempo. As lembranças me chegam um tanto misturadas.
ReplyDeleteAndar do lado de fora da torre, meu Deus! Mas, você era terrível mesmo!
Ha-ha-ha! Sim, aprontei muito e sempre me dei bem, graças a Deus! Ainda bem que meus pais nunca descobriram a maior parte das maluquices que eu fiz...
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