Alguns episódios que marcaram a minha adolescência em Pompéia, SP. Lembranças de momentos felizes e outros assuntos...

Wednesday, February 18, 2015

Um crime perfeito?

   Certa vez eu saí de Pompéia, com a minha bicicleta, a caminho de Quintana. Foi num sábado à tarde, 22 de junho de 1957. Era inverno e eu ia participar de uma festa de São João. Estava frio, mas o sol brilhava no céu manchado por grupos de grandes nuvens que pareciam tão fofas como algodão.

  Naquele tempo, a estrada de terra acompanhava a via férrea, ora por um lado, ora por outro, atravessando os trilhos por baixo de pontilhões ou nas passagens em nível.

   Em alguns meses eu ia completar 17 anos de idade. Estava em perfeita forma física, e era capaz de ir de Pompéia a Quintana mais rápido do que o trem. Até me divertia com isso, às vezes saindo de Pompéia ou de Quintana para chegar ao destino antes de o trem chegar.

   Passei por baixo do único pontilhão que havia entre Pompéia e Paulópolis e fiz a curva fechada para a esquerda, começando a pedalar mais forte para vencer a subida que havia ali. Era difícil, mas descer da bicicleta e empurrar era inadmissível. Eu considerava uma questão de honra sair de casa e ir aonde quer que fosse sem por os pés no chão durante todo o percurso.

 Cafezal  Eu gostava muito de observar a paisagem. As colinas verdejantes da minha região eram maravilhosas e o ar puro que se respirava naquela época até fazia arderem os pulmões  de um ciclista como eu, que tinha acabado de pedalar forte numa subida bastante íngreme.

   Foi nesse instante que vi um vulto correndo pelo cafezal que havia à minha direita. Olhei, e não vi ninguém. Seguramente seria alguma criança brincando de esconder, entre os pés de café. Num sábado lindo como aquele, o pessoal da zona rural ia fazer compras na cidade e eu tinha certeza de que não seria alguém trabalhando na roça.

   Depois de mais um par de pedaladas, meu estômago gelou. Tinha uma pessoa caída ali, quase junto a mim, pelo lado de dentro da cerca da fazenda. Com as pernas bambas, eu pensei em parar, mas segui adiante. Alguns metros depois, decidi voltar.

   Parei, virei a bicicleta e, quando olhei, vi de novo aquele vulto correndo. Agora, ia atravessando a estrada, a uns 50 metros de distância de onde eu estava, em direção ao pontilhão. O sujeito escondia o rosto atrás de um chapéu de palha, e ia depresa demais. Não consegui ver as suas feições.

    Que seria aquilo? Que raio estaria acontecendo bem embaixo do meu nariz? Por que aquele sujeito corria daquele jeito? Quem seria a pessoa que estava caída bem ali? Que teria acontecido?

   Decidi voltar. Cheguei bem perto da pessoa que estava caída ao lado da estrada. Era um rapaz que devia ter mais ou menos a minha idade, caído de costas, com o rosto virado na minha direção. Tinha um filete de sangue saindo pela boca, e não parecia estar respirando. Passei pela cerca e me aproximei. Realmente ele não respirava.

   Além do sangue que corria da boca, ele tinha uma ferimento ao lado esquerdo do peito. No chão, atrás do corpo dele, junto ao tronco do pé de café, tinha uma faca ensanguentada, uma lâmina de uns 20 centímetros de comprimento.

   Parecia que um crime tinha acabado de ocorrer. A melhor coisa a fazer seria sumir dali antes que o outro sujeito voltasse e me atacasse.

   Mas quem quer que tentasse correr atrás de mim iria se arrepender. Eu era rápido demais na bicicleta, e parti, levantando poeira, mas parti de volta para Pompéia. Ia procurar o delegado e contar tudo que tinha visto na beira da estrada.

   Os poucos minutos que pedalei de volta para Pompéia foram como uma eternidade. Mil coisas me passaram pela cabeça e várias vezes eu mudei de ideia. Talvez fosse melhor ficar calado e deixar que outra pessoa encontrasse aquele cadáver. Mas, e se outra pessoa tivesse visto quando passei pela cerca e confirmei que o homem estava morto? Nesse caso, a melhor coisa a fazer seria procurar a polícia.

   Passei como um foguete pelos armazéns da Sanbra e a Jacto, e entrei como um raio pela rua Carlos Bueno de Toledo. Vi um policial na esquina com a Senador Rodolfo Miranda e parei. Contei o que tinha visto, e me mandei para casa.

   Só saí na segunda-feira, na hora de ia ao Ginásio. Meus pais e meu irmão estranharam por eu ter ficado em casa todo aquele fim de semana, mas não contei nada a eles. Quando saí, esperava que alguém viesse comentar comigo aquele episódio ou pedir mais detalhes do que tinha acontecido. Nada. Ninguém perguntou, ninguém disse coisa alguma. O que tinha sido um mistério ficava mais misterioso ainda.

   Teria sido um sonho? Não, não tinha sido um sonho. Eu tinha visto aquele  jovem morto, tinha visto um vulto correndo, fugindo da cena do crime.

   Mas o assunto morreu ali. Não vi mais o policial que tinha encontrado na rua, e nunca mais ouvi uma palavra sequer sobre aquele episódio. Nenhuma nota no jornal “A Época,” nenhuma palavra nos noticiários da Rádio Difusora, nenhum comentário na cidade.

   Apesar de ter ficado intrigado com esse mistério, resolvi me fechar e não contar a mais ninguém, Pensei em ir perguntar na delegacia, mas decidi não ir. Seria melhor esperar pelo desenrolar dos acontecimentos.

   Mas não aconteceu nada. No sábado seguinte eu peguei a bicicleta bem cedo e rumei para o local onde tinha visto o rapaz morto. Nada. O cenário era o mesmo de sempre. Uma estrada de terra, um cafezal muito bonito e viçoso, o sol brilhando e o céu azul com grandes nuvens brancas como a neve. As colinas que eu via em toda a minha volta eram as mesmas de sempre, como um quadro pintado por Deus, de uma beleza e complexidade que só o Criador poderia desenhar.

   Alguém tinha sido morto ali, mas não havia sinal algum que apontasse para isso. Alguém tinha saído correndo quando me aproximei, mas disso também não havia sinal algum.

  O crime perfeito? Talvez. Mas isso não chega a ser novidade. Muitos crimes assim acontecem no mundo quase todos os dias, sem que ninguém saiba.

PS.: Esta história é uma pequena obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou já falecidas é mera coincidência.

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