No tempo do Tiro de Guerra, domingo era dia de descer marchando a serra do bairro do Futuro, para ir ao stand de tiro, praticar tiro ao alvo. Afinal, diante das ameaças de tantos inimigos, o Brasil tinha que preparar os seus soldados para atirarem direito, certo? Sim, mas com os velhos fuzis do tempo da Segunda Guerra Mundial ficava difícil.
Não é justo zombar dos fuzis, porque a Segunda Guerra Mundial havia terminado apenas 14 anos antes, de sorte que os fuzis que tínhamos eram relativamente novos. Não tinham uma mira muito boa, e davam um “coice” enorme a cada tiro, mas tudo bem, porque vida de soldado do Exército não tem que ser uma vida de moleza.
A instrução começava todos os dias às 5 horas da manhã e, durante a semana, eu ia fardado às aulas, que começavam às 7:30 h. Confesso que me sentia mais homem do que os meus colegas que usavam o uniforme normal do ginásio. As meninas gostavam mais de mim quando eu estava fardado…
Então, aos domingos, nós nos preparávamos para a longa marcha e descíamos a serra, até o stand de tiro. O stand ficava longe da cidade e não havia nenhuma casa por perto, que era pra não ficar assustando quem não tem nada com isso. Bem feito. Lá íamos nós, carregando aquele fuzil pesado e mais a caixa de munição. Na ida não era tão ruim, porque, pra baixo, todo santo ajuda. Mas, na volta, era fogo! O lado positivo da coisa é que éramos uns garotos parrudos, de pouco mais de 18 anos de idade, e a musculatura estava em ordem. A subida da serra era moleza…
Vou encurtar um pouco a história. Depois da minha vez de passar vergonha com o fuzil. sem conseguir acertar no centro do alvo uma única vez (culpa da mira do fuzil, claro), eu era escalado pra subir até o alvo e ficar lá, trocando o papel de vez em quando, porque ele ficava todo furado de bala. Cada atirador tinha direito a cinco tiros, e depois de uns três ou quatro atiradores, o papel do alvo estava em frangalhos.
A troca acontecia a cada 15 ou 20 minutos, dependendo de quanto tempo cada soldado resolvia brigar com o peso do fuzil e a mira, que não ajudava nada! E, como eu não tinha nada que fazer nesse meio tempo, eu me deitava na grama, de barriga pra cima, de cara para o sol, pra me bronzear e deixar todo mundo com inveja da cor da minha pele. E as balas voando por cima…
O alvo ficava longe dos atiradores, de sorte que o barulho dos tiros não era muito alto. Mas eu tinha que ter muito cuidado pra não me meter a trocar o papel do alvo enquanto alguém estava se preparando para atirar. Caso contrário, eu nunca iria poder me mudar para Montreal e experimentar aquela vida maravilhosa que eu tive lá.
Bom, o barulho não era muito alto, o calorzinho do sol era gostoso e a grama muito macia. Aí, eu dormia. Isso mesmo, dormia atrás do alvo!
Todo domingo era a mesma história. Quem tira o seu cochilo à tarde, como eu faço quase todos os dias, sabe que um soninho de 10 ou 15 minutos é mais do que suficiente para rejuvenescer qualquer um. E eu ficava todo rejuvenescido, depois de dormir uns 15 minutos, entre cada trocada de alvo. Acho que nunca levei nenhum tiro ali…
A volta para a cidade, subindo a serra do Futuro, era muito mais fácil depois da soneca por trás do alvo. Mas é melhor você ler isto aqui e ficar calado ou calada, porque eu nunca contei isto a ninguém!
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