Em uma determinada época, entre os anos de 1954 e 1958 eu viajei mais de 50 vezes entre Pompéia e Marília, de bicicleta. Eu adorava pegar a estrada, passar por Oriente e Padre Nóbrega e sentir o cheiro gostoso de azeite vegetal sendo fabricado na entrada de Marília. Anos mais tarde, toda vez que eu chegava a Marília de carro, com minha sobrinha Maria Emília, ela dizia:
-- É o cheirinho de Marília, tio!
Nessas idas de bicicleta eu ia visitar as minhas quatro tias e minha avó, que moravam lá e aproveitava para passear pela cidade, que conhecia muito bem.
Geralmente, a volta era mais difícil, porque eu ia já no final do dia, depois de ter andado de um lado da cidade para o outro o dia todo, sempre pedalando. Algumas vezes eu chegava em casa à noite, bastante cansado.
Numa dessas viagens, eu estava quase entrando de volta em Padre Nóbrega quando cruzei com um grupo de três cavaleiros que seguiam pela estrada. Iam devagar, conversando e um deles jogou a ponta de cigarro em mim. Eu reclamei, claro: O sujeito não gostou, e disse:
--- Que foi, moleque? Tá quereno apanhá?
Eu não disse nada, e acho que o cara ficou mais bravo ainda. Notei que ele estava embriagado e resolvi virar as costas e pedalar com toda força. O cara continuava gritando.
--- Péra ai, moleque! Vô te mostrá com quantos pau se faz uma canoa! Para aí, seu vagabundo! Eu te pego e te quebro a cara, seu porquêra! Vem cá que eu te mostro como se fala com um home!
Parei nada! Fiz mais força ainda, porque o cara agora vinha atrás de mim galopando! Eu achei que meu fim estava próximo.
Mas o sujeito estava bêbado. Falava enrolado, quase não conseguia se manter na sela, e não sei como não caía. Com o corpo tombando para um lado e para o outro, ele ia puxando a rédea pra cá e pra lá, e o cavalo ziguezagueava pela estrada. Chegava a ser engraçado, mas eu não tinha tempo pra rir. Queria chegar logo ao povoado, e pedir socorro a alguém.
Eu ia uns 20 ou 30 metros à frente, quando finalmente ele tombou para um lado e foi ao chão. O animal continuou galopando, mas já não era para me perseguir…
Agora eu estou aqui, rindo daquele imbecil embriagado que comeu terra quando tentava me perseguir. Mas, na hora, eu tive muito medo. Graças a Deus, o cavalo não me alcançou enquanto o cara estava montado.
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