Cidade do interior tem (ou tinha) umas coisas interessantes. Os rapazes e as garotas todos se conhecem e, em muitos casos, estão sempre juntos. Garotas de um lado, garotos do outro, mas sempre juntos.
No meu tempo de jovem em Pompéia, era assim: se aparecesse alguém de fora, algum rapaz novo na cidade, havia três possibilidades. 1) Ele seria bem recebido se fosse alguém chegando de mudança, com a família. 2) Ele seria bem recebido se fosse parente de algum outro rapaz da cidade. Mas, 3) se fosse apenas um bicão que aparecia num baile, ou vinha com intenção de paquerar altguma garota na quermesse, ah, aí a coisa ficava preta. Tinha sempre um grupinho que a gente poderia chamar de “tropa de choque”, que ia encarar o visitante e botá-lo pra correr.
No entanto, se aparecesse alguma garota de fora, fosse qual fosse o motivo para ela estar ali, seria muito bem recebida, tanto pelos nossos rapazes como pelas nossas garotas. As meninas de Pompéia sempre foram muito educadas e gentis com as de fora. Os nossos rapazes também.
Mas, como eu dizia, havia uma espécie de “tropa de choque” e, na linha de frente dessa tropa, tinha um rapaz da minha idade, que era mais alto e mais forte do que eu e que sempre encarava qualquer situação. Claro que não vou dizer o nome dele, mas tinha a minha idade e vivia provocando os outros, empurrando, desafiando, brigando mesmo. Várias vezes eu o vi aos empurrões com rapazes de Oriente, de Quintana ou de Marília, que vinham sondar o ambiente feminino na nossa terra.
Alguém me contou que, um dia, alguns dos nossos rapazes tomaram o trem e foram parar em Oriente. Ia haver um baile animado lá, e eles não queriam perder a chance. Havia um bando de garotas bonitas em Oriente também, e eles foram lá testar a temperatura da água. O nosso amigo briguento também viajou, como chefe do grupo de Pompéia.
Pois eu fiquei sabendo que o pessoal de Oriente estava esperando e os nossos rapazes nem conseguiram sair da estação. Houve pancadaria e quem mais apanhou, segundo me contaram, foi o nosso briguento. E a coisa foi tão feia que eles saíram corridos de Oriente, tendo que voltar a pé para Pompéia.
Faz muito tempo e não me lembro muito bem dos detalhes desse episósio, mas nunca mais vi o briguento brigar. Ele mudou muito e, logo depois desse episódio, começou a namorar firme, deixou de ir aos bailes e de provocar os rapazes de fora. Mais tarde ele se casou, tornou-se pai de família e sossegou.
O pessoal de Oriente não era de brincadeira. Ainda bem que eu nunca briguei na minha vida! E nunca fui de invadir território alheio…
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